Por vezes, embrenha-se de tal forma na sua mente, que se esquece de olhar, até mesmo dos olhos.

A cor do assunto

Hoje uma pomba branca passou por cima de mim e pousou ali perto, acompanhando-me na reflexão.

Como é bom viver!

A vida é-nos dada, incontestavelmente. Com amor? Vejamos.
Quando o mundo exterior derrotou a alma e esta pouca resistência ofereceu, ele pode estar em ruína e atingir a alma com tudo o que de mau existe, mas a vida permanece. Estando vivos, temos a garantia que não morreremos nunca, como almas. Apesar de tudo parecer desabar, isso é facil mudar porque tudo depende do que temos aqui dentro, e ainda somos livres! Sendo assim, o amor parece estar na dádiva.
Imaginando a alma na sua essência, calma e bem. Olhamos para cima, inspiramos fundo, e inevitavelmente nos invade uma energia agradável. Sabemos que o dia se segue à noite. Sabemos que temos um chão que nos suporta, uma força que nos agarra a este planeta. Sabemos que o Sol é energia. A nossa mente é incrível, as nuvens deixam-nos sentar sem problemas, a música já nasceu connosco, as imagens que aparecem aqui dentro mantêm-se, se lhes dermos importância. O coração bate a um ritmo que nos permite viver rindo, correndo, criando, viajando. A vida nas plantas é o que nos dá o que respirar, o que comer, o que admirar. Os animais. Em cada um deles encontramos encantos e até inspiração. A praia ao fim da tarde, com o Sol a pousar lá longe mas aqui dentro, com a certeza que cumpriu a sua missão do dia, as gaivotas a emitirem aqueles sons que nos despertam, as ondas a rebentar sem medo das rochas, despoleta a reflexão em mim, mais, o amor. As almas de quem gostamos enchem-nos de satisfação e vontade de fazer mais e melhor, porque são capazes de amar. Nós temos a capacidade de amar! E as relações são prioridade para o bem-estar, de qualquer pessoa. Como alguém disse, a felicidade só é real quando partilhada.
Dão-nos a vida, a capacidade de amar, este planeta repleto de beleza e barulhinho bom. Suavidade, cor, aroma. Cabecinha. Ai, se quem nos deu isto não nos ama, o amor não existe.

É verdade, dão-nos demasiadas distracções. A nossa memória começa a falhar e deixamos de nos lembrar de parar para pensar. E quando o fazemos somos obsessivos.
A culpa não é da tecnologia nem dos tempos. Cada um de nós tem o livre-arbítrio. Nós é que decidimos com o quê nos distrairmos ou não. Ai, é um paradoxo, isto da liberdade. Sempre que se reivindica a liberdade, o que se reclama é a liberdade de nos deixarmos prender. É mais confortável.

Abri a janela e apressei-me a pôr a cabeça de fora ansiosa por sentir os pingos vindos de uma névoa que pouco tinha de misteriosa. Ai, mas havia qualquer coisa lá em cima que me protegia. E não eram as meias. De qualquer forma, fiquei ali a sentir a humidade e a absorver o cenário jovem. Branquinho mas não de neve, seco mas não porque não chovia, melódico mas não por pássaros cantarem, refrescante mas não porque estava frio ou vento. Estava a nascer e precisava de tempo. Eu observava e deitei-me ali ao parapeito, nascendo com o cenário. Nasci de uma névoa não misteriosa, seca por um Sol inexistente.

Cheira mal. É muito raro cheirar-me mal. Como a minha mãe diz, o meu nariz é selectivo, o esperto. Mas às vezes trama-me. Cheira mal e não sei de onde vem. Cheira mal e isto apoquenta-me. É intrigante não saber o que cheira mal, se calhar é aqui dentro. Aqui dentro? Ai, aqui dentro. O que estará podre? O coração ou as mãos? Tenho mais medo de perder as mãos. Tolice, a minha. Este medo que cheira mal. Preferia que não fosse a única a sentir este odor. E as minhas manas e a minha mãe têm um olfacto tão apurado! E só eu sinto. Ai, que me apodreço.
Mas pelo menos apodrecendo ainda me sinto. Melhor sentir, mesmo que cheirando mal.
A insensibilidade pica-me e dói mais que o cheiro.
É Natal e hoje vivemos um belo dia de Sol. É Natal e ainda nos abraçamos e somos sinceros e queridos. Pena não evitarmos as ofensas.
Amor cá do fundo

A chuvinha suave

Hoje choveu como se nevasse. Umas gotinhas dentro de flocos de neve pequeninos pequeninos.
Era uma chuva diferente. Tem sido uma chuva diferente.
Dá-me a sensação de que estou dentro de qualquer coisa sempre a mudar, sempre a mudar. E estou, mas foi a chuvinha que me fez sentir isso. Senti-me tão livre! Sentia-a na cara e não fazia doer. Era um presente.
E saltar nas pocinhas. E saltar em cima de montes de folhas caídas.
Co-autoria de Beatriz Costa
(Este é centésimo post. Parabéns, leitores.)

Let it be

Os olhinhos sorriem descaradamente e o coração dança como louco. A alma enche-se e musica. E assim vai, deixando-se ser, deixando ser. Mas nem sempre, porque há momentos em que gira sobre si mesma, desgrenha-se e berra.
A sensibilidade cresce e os gestos da outra alma tornam-se enormes. O arrependimento vem fácil, mas a satisfação compensa. E a alma fica meio estranha, sempre tentando pensar em vez de sentir. Ah, mas ele amolece-a, aconchega-a de tal forma que ela não se mexe, apenas sente e deixa-se ser. E passado um tempinho, logo vem o desgrenhanço. E é aí quem vem a Mãe Maria sussurando palavras sábias. Seja ela quem for. Depois de erguida, a alma pensa. Pensa demasiado, nem se redime tão facilmente. Não entende a sabedoria das palavras. Vai vivendo e só depois de alguns momentos, olhando para si, vislumbra a música. Ouve agora as palavras. É então aí que se deixa sentir. E compreende que deixar-se ser é deixar-se sentir, que se lixe a razão, ela aqui não existe. Volta a deixar-se encher e volta a musicar, no entanto, agora, não se desgrenha. Agora chora um pouquinho. Mas volta num instante, até repousar em si e nele.
Assim vai amando.