Por vezes, embrenha-se de tal forma na sua mente, que se esquece de olhar, até mesmo dos olhos.

A cor do assunto

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Papá, papá

- Papá, papá, o que é o sonho?

- O que achas que é, filho?

- Ouvi dizer que as crianças deviam ter muitos. E que ninguém nos devia tirar os sonhos. São doces, papá?

- É isso mesmo, são doces.

- Então mas tu dizes-me sempre que só devo comer doces de vez em quando!

- Sim, é verdade, só deves comer doces de vez em quando, mas isso não te impede de teres muitos.

- Mas os doces não são para comer?

- Os sonhos são uns doces diferentes. Deves mantê-los sempre contigo, mas só comes um de tempos a tempos.

-Porquê?

- É que depois de comeres, o sonho desaparece e cada sonho é especial, não é só um doce.

- Então o sonho é um doce para o coração, pai?

- Sim. Antes de o comeres, ele está lá no coração, depois vai-se embora. Mas tem validade. Por isso, tens sempre de o comer. É um doce manhoso.

- Ó pai, então eu não quero sonhos!

- Olha aqui, já estás cheio de sonhos!

- Então vou deixá-los no meu coração. Depois vejo isso da validade. Que achas, pai?

- Seguirei o teu exemplo, filho.

Oasis

Entra-me pelos ouvidos e instala-se no conforto do meu íntimo. Leva-me a tempos já passados. A voz é-me tão familiar, já fazem tão parte de mim.
Recordo-me de ser pequena e ter na mão os cds e parecerem-me todos iguais: as capas tinham lá as suas semelhanças. Não tinha ainda capacidade de associar essas coisas à música, mas recordo-me de ouvir e gostar, apesar de ainda não perceber muito bem o que diziam. Não distinguia umas músicas das outras: mas reconhecia-os se eram eles que tocavam na aparelhagem das minhas irmãs. E naquele rádio, enorme, da Sony. Lembro-me tão bem. Não tinha consciência nenhuma do que era estar a ouvir aquilo, nem era eu que os punha a dar. As minhas irmãs punham a música e aquilo ia entrando em mim.
Ouvi-los hoje traz-me aconchego. Com tudo isto que muda, ainda há alguma coisa que permanece dos meus tempos de pequena. É óptimo sentir isto. Não mudei muito quanto à capacidade de associação. No entanto, agora aprecio melhor. Pode ser mais do mesmo, mas é um mesmo que me dá gozo. Esta mesma música. E o que me apraz mais é isso, é ter ficado.

A força que nos traz de volta

Por vezes, mesmo com esta maravilha de planeta que nos emprestam, nós deixamo-nos cair, filtramos as belezinhas e envolvemo-nos naquele negrume pesado. Olhamos para o espelho e aquilo que vemos causa-nos um desconforto tal que enjoamos de nojo. Caídos, o que acontece bem não existe. O tédio, pensamos que é o tédio. No entanto, mantemo-nos ocupados. Fazemos, fazemos, fazemos nada. E é aí. Aí é que está o enfado, o desânimo. Não é nas acções em si, é no que elas não produzem. Sabemos que fazemos. Ai, mas não sentimos que o feito seja útil! Mesmo sem entender isto racionalmente, é este sentimento que nos empurra. Nós, caímos.
E tendo tudo, não nos desenvolvemos para obter, para apenas para ter. Tantos de nós somos ociosos. E aquela moleza, que nos descontrai e até nos deixa apreciar melhor as coisinhas, sabe bem. Mas farta. E é quando isso acontece que chega o amigo tédio, já tão conhecido. O entusiasmo! É o entusiasmo que foge. Têm a mesma carga, não podem estar juntos. E como o chamar? É que mandar embora o tédio não resulta porque ele fica se pedem o contrário. Ele não responde a contrários, ele só responde a uma vontade de querer algo, não de não querer algo. Não querer o tédio? Querer o entusiasmo. E isto é motivado pela utilidade de certa acção. Ao avistar um resultado ÚTIL, queremos o entusiasmo para o concretizar. E querer o entusiasmo já é estar entusiasmado.
A moleza é óptima, o empenho também. Dediquemo-nos à utilidade. Relaxemos na utilidade.
E é esta força que nos puxa de volta à alegria de viver, é a sensação de merecermos o planeta emprestado.

certo

Ai, os hábitos trazem-nos aquela segurança sossegada. No entanto, os hábitos também nos apoquentam, naquela sua rotina que até faz adormecer. Desassossegam por sossegarem tanto. E trazem aquele radical desejo de mudar de vida. Viagem, mudança de look, reconstrução de ideais, agitação provocada, experiências novas. Sobre estas mudanças todas, vendo objectivamente, trocamos a rotina, mas não deixamos de ter uma. É aqui que está, é essencial a nós, pessoas, assentar nalgum meio, em alguma outra pessoa ou em nós mesmos, mas assentar. Precisamos que algo nos prenda, ou que nós próprios nos agarremos. Aliás, não é assentar é essencial a nós, pessoas; assentar é aquilo que faz com que sejamos uma pessoa, uma única pessoa. E não várias. Assentar é criar laços. E os laços carecem de tempo, o tempo das relações não das horas, para se formar e cimentar.
Os hábitos agarram-nos a uma vida dentro da qual variamos. E, sem uma rotina, não seríamos capazes de nos movimentarmos em nós próprios. É aí que os hábitos, tantas vezes irritantes, nos ajudam a viver, nos dão espaço para reflectir.

Andar à chuva

Era fininha, delicada, cheia de vontade de dar. Mas as pessoas assustavam-se. Todas se cobriam e corriam naquele passo tão medroso. Ela não era assustadora. Aliás, ela tocava e ficava ali a refrescar tão suavemente. Umas gotas desfaziam-se ao tocar a minha mão, tornando-a calma e bonitinha. Havia outras que permaneciam originais, perfeitinhas. Agudas, tão agudas eram elas: daí o susto. No entanto, era o entusiasmo em dar um pouquinho de água, era o entusiasmo de poder renovar sem constipar quem fosse. Oh, as pessoas fugiam. Tola, abria os braços e olhava para o céu agradecendo aquele mimo. Desdenhando, ria e desenrolavam-se dentro da mente juízos que viam Tola ridícula. A chuva ofereceu e ficou triste pela pequenina receptividade. Mas não se viu tristeza em quem não recebeu. E isto impele para tanto: quem dá satisfaz-se melhor que quem recebe.
Hoje vi um famoso clip no youtube "prova de amor" e pousei nele, cogitando. Ela sofreu, ela ficou atada naquele nó de culpa involuntária simultaneada por gratidão culpada. Ele foi transbordando de alegria, quão bom tinha sido, a perda ainda o tornava mais forte. Isto gera uma tempestade cá dentro que me faz sentir que é egoísta dar, e generoso deixar-se receber. Oh, que estranheza de pensamento.

os sentidos

Os sentidos. Os sentidos são uma dádiva.
No outro dia, depois de regar a horta, agachei-me e escutei a terra a absorver a água. Vi, apalpei. Cheirei, sentia-se tão bem aquele aroma a terra molhada. Lembrava os dias em que só se sente esse cheiro, só se vê tudo molhado mas ninguém sabe quando choveu.
Os sentidos são uma dádiva.
Os nossos sentidos não se desligam, estão sempre ali ligados. Escolher o que queremos receber é lixado. E, na maioria das vezes, não escolhemos e deixamos que nos entre o que for. Deixamos deixamos deixamos... E os nossos sentidos às vezes até se irritam com isso, mas só filtram quando queremos. Escolher o que nos entra é transformarmo-nos no que somos. Devíamos ser mais activos na nossa própria educação.
Os sentidos são o que nos liga ao exterior. E têm duas mãos. Pena deixarmos vir mais do que vai.

É tudo uma questão de ponto de vista


Estou aqui, sentadinha a escrever. O Sol lá fora sabe-me melhor que qualquer outra coisa. A quem trabalha na vigilância da floresta, sabe mal porque assim não há maneira de se esquivarem ao trabalho. A quem está na praia, é demais porque a areia escalda. A quem trabalha fechado na fábrica, é indiferente. A quem trabalha sem ar condicionado mas com janelas, o Sol é um chato.

Um exemplo tão banal como este ilustra muito bem que algo, sendo sempre o mesmo, nas mentes das pessoas torna-se em milhões de outras coisas. Porque não olhamos para o que existe, olhamos para o significado do que existe. Antes sequer de observar o que é, as sensações que nos chegam afastam-nos da essência do que ali está. Isto é o que nos vai empurrando para longe da realidade. Que raio de mania de atribuir significado a tudo! É que depois no cérebro as ligações feitas por pouco observar o que existe desencadeiam emoções. E, muitas vezes, a única forma de começarmos a levar a vida como vida é mudarmos essas ligações e deixarmos de transformar chuva em mal-estar, o pai em irritação, o estudo em tédio. Já que não vemos a realidade, que a sintamos positiva.

Esta questão conduz a indagar que valor tem, assim, a essência das coisas se ninguém a vê.

E assim tudo parece relativo. No entanto, acredito no valor absoluto do que existe, só ainda não o alcancei. Aos poucos, vamos evoluindo e entendendo a essência da vida. É uma longa senda na qual vamos indo, tão impacientes. Ainda nos temos de contentar com os nossos próprios significados.

Que se lixe quem tem razão, isso não existe. É tudo uma questão de ponto de vista.

Postes e árvores




Postes, demasiado postes. Para tudo levantam um poste.



Estes postes hoje causaram aqui uma coisa dentro... E aqui posto sobre postes.





instinto

Menosprezamos o nosso instinto. É algo complicado distinguir o que é instinto. Mas o que é certo é que Deus ainda nos deixou um pouco para não nos perdermos tanto.
Instinto, aquela sensação injustificada que descartamos, por vezes. Pode ser impressão. O que é verdade é que somos nós a entender o que não está ali evidente.
Há uns tempos, não simpatizei nada com uma pessoa, ignorei e agora desilusão.
Porra, somos inteligentes como tudo, sabermos discernir sobre questões abstractas. No entanto, não queremos aplicar a genialidade nestas coisas de compreender o que é genuíno instinto e o que não é. E até pensamos demais em assuntos que se resolvem por si só. Temos tudo e esquecemo-nos tanto disso, tanto.

não pelo que é

Espalharam-na por aí. Encheram as paredes e o ar com ela. Encheram-nos os sentidos com ela. Atiraram-na para a sarjeta disfarçada de outdoor. Ela sempre tão linda, tão apreciável. Ela é profunda. Oh, se paramos e a deixamos entrar em nós é fantástico. Só que encheram tanto tudo que criámos barreiras, criámos indiferença perante ela.

Como há muita por aí, deixou-se de saber o que é ela, o que ela é. Tornou-se uma companhia, tal qual como a televisão ligada em canais reles. Está lá e isso conforta, não pelo que é, pela sua presença. Sentimos quando liga e quando se desliga, mas não se aprecia nada do que se passa. E é tão triste, esta banalização. É como se tivéssemos sempre de mudar de vida porque por mais que gostemos dela, acostumamo-nos a ela e esquecemo-nos do que é, dos tempos em que sonhávamos com ela.

Encheram as ruas de cartazes todos iguais. O primeiro foi cuidadosamente pensado ao pormenor. Mas todos juntos dão vómitos. A música pode ter sido inspirada e sentida, só que a tocar o dia todo, quase se apaga a si própria. O edifício pode ter sido feito com minúcia e ter ficado bonito. No entanto, se se trabalha lá dentro todos os dias, ai que nem se olha...

A banalização mata a ela, a arte.

Sei lá.

Sobrevoo as nuvens, neste momento. Mas elas continuam por cima, com toda a sua fofura e sedução. Eu não sei, já fui considerada anormal por adorar este fenómeno que torna a Mãe Natureza a melhor escultora de todos os tempos. Pensar no que elas são cientificamente leva todo o encanto (afinal não dá para saltar nelas como em insufláveis). Contudo, como Pessoa diz, "tudo é absurdo e o sonho é o que menos o é". E, então, sonho e salto, deleitando-me no sonho que é pouco absurdo, por isso, sou até mais normal. segundo Fernando Pessoa.
Epá, mas eu digo "nada é absurdo, nem ridículo, nem óbvio". A realidade só é conhecida por seres omniscientes e nós não o somos. Portanto, sem ter conhecimento de tudo o que conduziu a certa acção, não estamos aptos para designar o absurdo. E os seres com o privilégio (ou responsabilidade) de saber tudinho, não irão achar nada absurdo porque as questões que nos trasncendem explicam tanto e tornam normal, o que quer que seja. Discordo dele, portanto. No entanto, sobrevalorizo o sonho e é nesse sentido que sou menos anormal perdendo-me na minha mente, imaginária também.
O ilusório é um bicho estranho porque não se distingue: chego a não o saber ilusório. Mas é o inconsciente? O nosso inconsciente é o que em nós é menos ilusório e mascarado e é ele que mistura coisas lá de fora com as cá de dentro e faz os sonhos surreais que lembram por vezes, as mais castanhas, as criações de Dali, as mais vivas, as de Kush. Então, serão estes sonhos ilusórios ou o mais verdadeiro espelho ao qual nos podemos estrangeiramente ver? Ilusório significa não ter acontecido no exterior? Então e o que se passa dentro não vale nada? Talvez designemos este nosso subconsciente de ilusório por medo.
A quimera não existe porque tudo o que eu sinto, sei ou empurro está na minha mente, por percepções. Oh God! O ilusório não existe. Existe sim o físico e o não físico.

A verdade é quase nada, de tão múltipla.

Bastantes opiniões por aí em volta. E aderimos a este ou àquele que opina, ou não. Penso no que é uma opinião: tudo o que vivemos até agora e agora mesmo, nos leva a conotar a realidade da nossa forma, da nossa única forma. E, portanto, a opinião expressa por alguém chegará a cada pessoa de várias maneiras, cada uma única. Oh! É como se o infinito fosse esférico e houvesse infinitos pontos que vissem outros infinitos pontos, todos distintos. É-nos completamente impossível ver do mesmo ponto, e, assim, ver a opinião de quem quer que seja da mesma forma como o autor da opinião a formulou e depois a exprimiu. É estranha, esta impossibilidade. Torna de completa insensatez qualquer crítica (visto que não dá para criticar o que não se conhece)! Ai, que impotência e insanidade.
Talvez seja por esta impossibilidade que podemos estar a amar e sermos considerados como estando a morrer, a desaparecer ou a condenar.
É porque a realidade está lá e a verdade está em cada um. Mas esta distância! Não somos nós a realidade? Nem a nós vemos reais, apenas verdadeiros. Deve ser isto.
O criador da opinião é que a tornou real, que a vê e sempre a verá real, porque é obra dele. Assim, Deus, como criador da realidade, é o que a consegue ver real. Se é que Deus vê...

Existe maior punição que a consciência?

Eu era só observadora.

Eles eram vividos, consistentes; tinham vivido nos tempos do António de Oliveira Salazar. Falavam da sua educação, da austeridade das suas referências de infância. Falavam de reguadas que tinham levado não como quem lamentava, não como quem se regalava mas como quem agradece. É uma gratidão de quem recebeu o castigo como uma lição e, por isso, aprendeu. Uma aprendizagem forçada, seca. Acho que nem o é, é só assimilação de regras impostas. Maturidade alcançada, é a consciência que julga e aí é que se entende alguma coisa dos actos impensados, movidos a medo e resignação, do passado. Talvez daí a gratidão.

Como espectadora, não deixei de sorrir porque o seu entusiasmo era notável e sabiam discutir, eram queridos.

O tema emergiu dum caso mediático, o da menina que persistiu na luta pelo seu querido telemóvel, passando por cima de uma pessoa que a tentava ensinar.

Aquele grupo de almas vividas referiam algo como a falta de autoridade dos pais sobre os filhos. E continuavam a relembrar os seus tempos de juventude.

Eu acho autoridade uma coisa feia porque a necessidade dela deixa transparecer a nossa mediocridade. É a velha discussão sobre a anarquia e a autocracia. Há os que gostam da liberdade e há os que defendem um bom senhor omnipotente. São extremos. Gritar com a professora é um acto de rebeldia, infantilidade, desrespeito não muito pela autoridade, mais pela pessoa. Existem dois motivos possíveis, a meu ver: a personalidade própria; ou a inconsciência e falta de autonomia, de liberdade para aprender por si: fazes isto porque eu quero que seja assim (não sei porquê ou não tenho paciência para te explicar ou tu não irias perceber), o que leva à rebelião contra as "regras".

Infelizmente, a autoridade é necessária aqui porque a desordem se imporia e a instabilidade impediria uma vida decente. Isto é bem pena. Se, neste caso, não existe consciência moral suficiente para que haja paz, lá está a autoridade. E esta é uma pura chantagem psicológica que nos amedronta (não cometemos o erro por sentir receio de NÓS sermos prejudicados - egoísmo). Pois a chantagem psicológica falhou, previsivelmente. Porque, felizmente, nem todos têm medo.

Os senhores falavam de lições que tinham dado aos filhos com um grande orgulho. Os filhos tinham um comportamento que não os agradava e esses senhores, como pais, já depois dos anos-base da educação, impuseram regras, falavam: "as regras desta casa são estas e se tu ainda vives sob este tecto, tens de obedecer." Isto é um caso comum. Lamento tanto isto, é claramente o resultado de uma educação falhada (se não tinha sido até aí, esta imposição de regras estraga tudo: os filhos continuam com o seu comportamento - as suas convicções são mais fortes - ou mudam, não por consciência própria mas por dependência financeira). É triste.

Em conclusão, a autoridade são estúpidos e para estúpidos.

O tempo

Um dos maiores enigmas, para mim. Lembro-me de ser pequenina e perguntar à minha mãe como é que eu sabia quando passavam cinco minutos. Ela respondia uma coisa que pouco me ajudava, porque já não me lembro.
E as pessoas dizem. As pessoas falam do tempo que lhes voa. As pessoas sentem que lhe estão a sugar a oportunidade de viver. As pessoas dizem que o há muito passado aconteceu ontem. E as pessoas dizem tanto que até discutem porque têm cismas. E cismam tanto que apetece bater àquilo que lhes deu a certeza de que estão certas. E aquilo é o tempo, pah. Mas não se pode culpar.
As pessoas dizem e não pensam. Porquê que agora quando estamos a cantar avançamos sempre na letra? Porquê que agora excedemos o limite de velocidade nas estradas mesmo quando não temos pressa? Porquê que comemos em 15 minutos, tendo 2 horas de almoço? Porquê que escrevemos as mensagens o mais rapidamente possível, não sendo nada urgente? Porquê que os nossos pais começam a dizer asneiras e ficam hiper chateados quando as tecnologias lhes dão a volta e demoram mais de meio minuto a fazer uma coisinha? Porquê que há tanta pressa?
Acho que são as prioridades. Não existem. Adeus, qualidade. Olá números. Adeus, Miguel. Olá 120.
Talvez esta nossa ânsia de aproveitar o tempo ao máximo e desperdiçar o menos possível em coisas chatas, mas essenciais, talvez o nosso pensamento estar tantas vezes focado no tempo que gastamos o diminua. Talvez a energia criada por tantas mentes que tanto pensam no tempo o faça encolher. Acredito na coisa do pensamento. Acredito que ele é quase tudo. Às vezes, basta-me pensar para algo acontecer. E realmente, acho que as nossas ideias determinam, de certa forma, o que acontece. É, por isso, que acho que se não nos preocupássemos tanto com o tempo, ele permaneceria intacto. Assim, sendo tantas vezes impelido pela energia do nosso pensamento, ele chateia-se.

Já ninguém descobre nada.

Já ninguém descobre nada. Está tudo muito feito. Já nascemos com um mapa mundo à frente. O mapa que nos é tão natural que nunca o contestamos porque já alguém o fez e nos disse a razão de ele ser assim. Já nascemos sabendo que se come com um garfo e uma faca. Já nascemos achando que boa vida é não trabalhar. Já nascemos sabendo que temos de usar roupas. Já nascemos sabendo que o carro é essencial para irmos ali. Já nascemos sabendo que o fim-de-semana é para descansar. Já nascemos sabendo que um dia vamos ter filhos.
É como se alguém tivesse construído este modelo de vida e, até hoje, esse alguém ainda não tivesse reencarnado para o tornar menos feio.
Olhamos em redor, e vemos coisas feias: máquinas malcheirosas (carros, note-se) a serem-nos mais importantes que um amigo, edifícios tão feios e toda aquela matéria chata. Aquela matéria que nos enfeia tanto. A matéria que nos serve de esconderijo para a nossa alma. Queremos mascará-la porque achamo-la vergonhosa, porque a sabemos vergonhosa. E seria tão bonito mostrarmos a nossa vergonhosa alma sem nos envergonharmos desse acto... Seria tão bonito e tão menos duro.
Já nascemos dentro de caixas. Mas elas não nos impedem do que quer que seja. Elas só nos impelem, ligeiramente, para dentro da matéria. Mas, nós, como almas, temos toda a capacidade para sairmos dela. Já nascemos pesados e pouco alma. Por isso, quando descobrimos que o somos, negamo-lo como os gatos arranham o seu reflexo no espelho. E depois desta descoberta, ela não se cala e faz barulho. Se não a negássemos , ela musicava.

O preconceito não-preconceito .

O preconceito . As ideias pré-concebidas . O tirar conclusões, o formular opiniões, o julgar . São irreversíveis . Ouvimos a palavra e ridicularizamo-la . Vemos a imagem e pômo-la no lixo . Ouvimos o som e desligamos a fonte . Sentimos a textura e tiramos a mãos . Atitudes instintivas, irracionais, espontâneas . Irreversíveis ? São os dogmas inexoráveis . Lutamos contra, falamos contra, sentimos a favor . É o inconsciente . É a sociedade . Todos somos, poucas excepções . E se formos questionados sobre o preconceito, clarificamos logo que somos apologistas da liberdade em geral e que "gostos não se discutem" . Não falo apenas o preconceito referente à discriminação, mas daquele tão banal que se torna não preconceito . Aquelas ideias todas que nos passam pela cabeça sobre a pessoa que vai à Igreja ( ou que não vai ) . O Homem não foi à Lua ? A turma ri-se . A pessoa adora contar a sua vida no nick: cromo, coitado . Estes são juízos comuns de nós, civilizados .
Uma pessoa não é só uma característica, uma atitude ou um pensamento, é o produto da cultura . A pessoa é uma essência, um mix de aspectos interiores ou exteriores . É digno julgar a ideia, é inferior julgar a pessoa por uma ideia . Há muita coisa atrás da pessoa . Ninguém consegue impedir-se a si mesmo de emitir opiniões que a decrescem na nossa consideração .
Será que ao tocar no invisível possamos tornar reversíveis esta nossa percepção de que o nosso é o mais correcto ?

Pelo menos a luta contra fará ( esperamos nós ) diferença nas gerações vindouras . Apesar da palavra não ser a acção .

O que se encontra na janela de uma cidade grande .

Medo ? Só da morte . Deve ser mais ou menos esta a sua resposta ao serem questionados sobre o provável medo sentido estando lá no alto, martelando . Lá em cima . Eles . Em cima de tábuas . Quase soltas . Colocando cimento por cima de uns materiais algo complexos . Porra, coragem não lhes deve faltar ! Doidos: digo eu . Flexíveis: o facto . O adaptar à altura, ao ruído, às pragas rogadas pelos vizinhos a cujos ouvidos chegam as máquinas com que trabalham, ao menosprezo, ao tédio simultaneado com o ter de ser rápido e atento . Doidos e flexíveis .
Responsabilidade ! A responsabilidade de trabalhar materiais que servirão de casa para o McHitler ou para a Madre Wa Teresa Shiang . Estão limitados a uns 30 metros quadrados, apoiam-se em coisas enferrujadas (que vice-reinam enquanto esperam os futuros pilares) . Andam para cá e para lá no alto daquele prédio .
Responsabilidade de novo . A descontracção fenomenal com que fazem grandiosas obras é intrigante: experiência ou inconsciência ou banalidade/esquecimento ? Talvez um pouco de tudo . Observá-los é, na verdade, engraçado e interessante . Lá, são broeiros decadentes , pouco trabalhadores e "Ó grossa !" é a frase mais dita . Aqui, só os vi "à bulha" como cachopos no topo de um edifício muito inacabado . Um grande encargo em cima e muitos metros de altura embaixo, estão entalados .
Um bem haja aos construtores civis !

Egocentrismo .

O que é alguém egocêntrico ? Mmmmm .. É difícil definir . Mesmo porque há imensas concepções diferentes da palavra por aí ..
Acho relevantíssimo destacar a diferença entre se ser "convencido" e egocêntrico . "Convencido" refere-se apenas a um elevado auto-conceito, a achar-se bom . Egocêntrico remete também para a importância que se dá a si mesmo, mesmo não se achando bom . Por exemplo, imaginemos uma pessoa que se odeia mas que passa o tempo todo a falar de si, do tipo: "Eu sou burro !", "Eu faço tudo mal e não valho nada ." .. E continua . "Eu quero ir ali, mas não consigo porque vão todos olhar para mim !" . E assim vai . Parece-me que é, também, egocentrismo . E não é ser-se convencido nem achar-se bom, é a chamada mania da perseguição .
E questiono : É mau ser-se egocêntrico ? No conceito geral é . Contudo, talvez não seja bem assim . Podemos colocar-nos no centro do nosso mundinho e colocar todos coladinhos a nós . E pensar também muito neles . Digo eu . Afinal de contas, nós vivemos 24/24 horas connosco mesmos . É mais que natural que pensemos muito na nossa pessoa .
É a minha opinião . E admito, sou egocêntrica .

Um poema de Manuel Alegre [ belo ! ]

Que o poema tenha rodas motores alavancas
que seja máquina espectáculo cinema.
Que diga à estátua: sai do caminho que atravancas
Que seja um autocarro sob a forma de poema.

Que o poema cante no cimo das chaminés
que se levante e faça o pino em cada praça
que diga quem eu sou e quem tu és
que não seja só mais um que passa.

Que o poema esprema a gema do seu tema
e seja apenas um teorema com dois braços.
Que o poema invente um novo estratagema
para escapar a quem lhe segue os passos.

Que o poema corra salte pule
que seja pulga e faça cócegas ao burguês
que o poema se vista subversivo de ganga azul
e vá explicar numa parede alguns porquês.

Que o poema se meta nos anúncios das cidades
que seja seta sinalização radar
que o poema cante em todas as idades
no presente e no futuro o verbo amar.

Que o poema seja microfone e fale
uma noite destas de repente às três e tal
para que a lua estoire e o sino estale
e a gente acorde finalmente em Portugal.

Que o poema seja encontro onde era despedida.
Que participe. Comunique. E destrua
para sempre a distância entre a arte e a vida.
Que salte do papel para a página da rua.

Que seja experimentado muito mais que experimental
que tenha ideias sim mas também pernas.
E até se partir uma não faz mal:
antes de mulelas que de asas eternas.

Que o poema assalte esta desordem ordenada
que chegue ao banco e grite: abaixo a pança!
Que faça ginástica militar aplicada
e não vá como todos vão para França.

Que o poema fique. E que ficando se aplique
a não criar barriga a não usar chinelos.
Que o poema seja um novo Infante Henrique
voltado para dentro. E sem castelos.

Que o poema vista de domingo cada dia
e atire foguetes para dentro do quotidiano.
Que o poema vista a prosa de poesia
ao menos uma vez em cada ano.

Que o poema faça um poeta de cada
funcionário já farto de funcionar.
Ah que de novo acorde no lusíada
a saudade do novo o desejo de achar.


Que o poema diga o que é preciso
que cegue disfarçado ao pé de ti
e aponte a terra que tu pisas e eu piso.
E que o poema diga: o longe é aqui.

De Manuel Alegre.
[ Diz tudo !! ]

Pólos !

Os humanos . Os humanos são inteligentes . Certamente . Incontestavelmente . No entanto, os humanos sentem, sentem . Talvez esse seja o maior defeito dos humanos . Se não houvessem sentimentos, não existiriam confrontos e, consequentemente, deixaria de haver guerras e mortes despropositadas . Se os humanos não sentissem o mal .. também não sentiriam o bem ! Ai ! Não me parece bem . Deixar de sentir ? Sentir é uma virtude ! Ai ! Que estranho ! Contradições . A verdade é que é bom, diria mesmo, essencial, que haja o mal . O mal mesmo mal . Porque tudo o q existe de negativo, existe também, na mesma proporção, de positivo .
Sendo assim, há electrões e protões, há o possível e o impossível, a recusa e a resignação, o verde e o cor-de-rosa, os caracóis e os lisos, o complexo e o básico . É giro .
Bem .. então os humanos são capacitados . Têm o bom e o mau . Fazem deles o que querem .
[Tenho noção de que há algumas contraposições neste blog.]