Por vezes, embrenha-se de tal forma na sua mente, que se esquece de olhar, até mesmo dos olhos.

A cor do assunto

Não consigo mais. Incrível como em tempos consegui escrever o que nestas páginas se deita e rola e espreguiça. Agora não sei mais. Mas há um assunto sobre o qual gostaria de tentar escrever. A evolução. O que é a evolução? "O que mais vão inventar?" é a pergunta que mais frequentemente nos chega à boca. À boca porque talvez nem tenha passado pela mente. A evolução de que falo é a da Humanidade.

O dentista arrancou-me os sisos. Já não como carne crua que o meu homem das cavernas trazia das caças. Agora alimento-me de forma diferente, mais leve. E ainda bem. É uma evidência da evolução. Esta, em si, acontece de duas formas diferentes na nossa alma. Moral e intelectualmente. Mas hoje é a intelectualidade que mais se busca. O que mais vão inventar? O amor!

O que mais vão inventar? O amor, o amor.

Papá, papá

- Papá, papá, o que é o sonho?

- O que achas que é, filho?

- Ouvi dizer que as crianças deviam ter muitos. E que ninguém nos devia tirar os sonhos. São doces, papá?

- É isso mesmo, são doces.

- Então mas tu dizes-me sempre que só devo comer doces de vez em quando!

- Sim, é verdade, só deves comer doces de vez em quando, mas isso não te impede de teres muitos.

- Mas os doces não são para comer?

- Os sonhos são uns doces diferentes. Deves mantê-los sempre contigo, mas só comes um de tempos a tempos.

-Porquê?

- É que depois de comeres, o sonho desaparece e cada sonho é especial, não é só um doce.

- Então o sonho é um doce para o coração, pai?

- Sim. Antes de o comeres, ele está lá no coração, depois vai-se embora. Mas tem validade. Por isso, tens sempre de o comer. É um doce manhoso.

- Ó pai, então eu não quero sonhos!

- Olha aqui, já estás cheio de sonhos!

- Então vou deixá-los no meu coração. Depois vejo isso da validade. Que achas, pai?

- Seguirei o teu exemplo, filho.

Entramos dentro das pessoas. As pessoas entram dentro de nós. Não dá para arrancar. E ainda bem, apesar do perigo.

Oasis

Entra-me pelos ouvidos e instala-se no conforto do meu íntimo. Leva-me a tempos já passados. A voz é-me tão familiar, já fazem tão parte de mim.
Recordo-me de ser pequena e ter na mão os cds e parecerem-me todos iguais: as capas tinham lá as suas semelhanças. Não tinha ainda capacidade de associar essas coisas à música, mas recordo-me de ouvir e gostar, apesar de ainda não perceber muito bem o que diziam. Não distinguia umas músicas das outras: mas reconhecia-os se eram eles que tocavam na aparelhagem das minhas irmãs. E naquele rádio, enorme, da Sony. Lembro-me tão bem. Não tinha consciência nenhuma do que era estar a ouvir aquilo, nem era eu que os punha a dar. As minhas irmãs punham a música e aquilo ia entrando em mim.
Ouvi-los hoje traz-me aconchego. Com tudo isto que muda, ainda há alguma coisa que permanece dos meus tempos de pequena. É óptimo sentir isto. Não mudei muito quanto à capacidade de associação. No entanto, agora aprecio melhor. Pode ser mais do mesmo, mas é um mesmo que me dá gozo. Esta mesma música. E o que me apraz mais é isso, é ter ficado.

Hoje uma pomba branca passou por cima de mim e pousou ali perto, acompanhando-me na reflexão.

Como é bom viver!

A vida é-nos dada, incontestavelmente. Com amor? Vejamos.
Quando o mundo exterior derrotou a alma e esta pouca resistência ofereceu, ele pode estar em ruína e atingir a alma com tudo o que de mau existe, mas a vida permanece. Estando vivos, temos a garantia que não morreremos nunca, como almas. Apesar de tudo parecer desabar, isso é facil mudar porque tudo depende do que temos aqui dentro, e ainda somos livres! Sendo assim, o amor parece estar na dádiva.
Imaginando a alma na sua essência, calma e bem. Olhamos para cima, inspiramos fundo, e inevitavelmente nos invade uma energia agradável. Sabemos que o dia se segue à noite. Sabemos que temos um chão que nos suporta, uma força que nos agarra a este planeta. Sabemos que o Sol é energia. A nossa mente é incrível, as nuvens deixam-nos sentar sem problemas, a música já nasceu connosco, as imagens que aparecem aqui dentro mantêm-se, se lhes dermos importância. O coração bate a um ritmo que nos permite viver rindo, correndo, criando, viajando. A vida nas plantas é o que nos dá o que respirar, o que comer, o que admirar. Os animais. Em cada um deles encontramos encantos e até inspiração. A praia ao fim da tarde, com o Sol a pousar lá longe mas aqui dentro, com a certeza que cumpriu a sua missão do dia, as gaivotas a emitirem aqueles sons que nos despertam, as ondas a rebentar sem medo das rochas, despoleta a reflexão em mim, mais, o amor. As almas de quem gostamos enchem-nos de satisfação e vontade de fazer mais e melhor, porque são capazes de amar. Nós temos a capacidade de amar! E as relações são prioridade para o bem-estar, de qualquer pessoa. Como alguém disse, a felicidade só é real quando partilhada.
Dão-nos a vida, a capacidade de amar, este planeta repleto de beleza e barulhinho bom. Suavidade, cor, aroma. Cabecinha. Ai, se quem nos deu isto não nos ama, o amor não existe.

É verdade, dão-nos demasiadas distracções. A nossa memória começa a falhar e deixamos de nos lembrar de parar para pensar. E quando o fazemos somos obsessivos.
A culpa não é da tecnologia nem dos tempos. Cada um de nós tem o livre-arbítrio. Nós é que decidimos com o quê nos distrairmos ou não. Ai, é um paradoxo, isto da liberdade. Sempre que se reivindica a liberdade, o que se reclama é a liberdade de nos deixarmos prender. É mais confortável.

Abri a janela e apressei-me a pôr a cabeça de fora ansiosa por sentir os pingos vindos de uma névoa que pouco tinha de misteriosa. Ai, mas havia qualquer coisa lá em cima que me protegia. E não eram as meias. De qualquer forma, fiquei ali a sentir a humidade e a absorver o cenário jovem. Branquinho mas não de neve, seco mas não porque não chovia, melódico mas não por pássaros cantarem, refrescante mas não porque estava frio ou vento. Estava a nascer e precisava de tempo. Eu observava e deitei-me ali ao parapeito, nascendo com o cenário. Nasci de uma névoa não misteriosa, seca por um Sol inexistente.

Cheira mal. É muito raro cheirar-me mal. Como a minha mãe diz, o meu nariz é selectivo, o esperto. Mas às vezes trama-me. Cheira mal e não sei de onde vem. Cheira mal e isto apoquenta-me. É intrigante não saber o que cheira mal, se calhar é aqui dentro. Aqui dentro? Ai, aqui dentro. O que estará podre? O coração ou as mãos? Tenho mais medo de perder as mãos. Tolice, a minha. Este medo que cheira mal. Preferia que não fosse a única a sentir este odor. E as minhas manas e a minha mãe têm um olfacto tão apurado! E só eu sinto. Ai, que me apodreço.
Mas pelo menos apodrecendo ainda me sinto. Melhor sentir, mesmo que cheirando mal.
A insensibilidade pica-me e dói mais que o cheiro.
É Natal e hoje vivemos um belo dia de Sol. É Natal e ainda nos abraçamos e somos sinceros e queridos. Pena não evitarmos as ofensas.
Amor cá do fundo

A chuvinha suave

Hoje choveu como se nevasse. Umas gotinhas dentro de flocos de neve pequeninos pequeninos.
Era uma chuva diferente. Tem sido uma chuva diferente.
Dá-me a sensação de que estou dentro de qualquer coisa sempre a mudar, sempre a mudar. E estou, mas foi a chuvinha que me fez sentir isso. Senti-me tão livre! Sentia-a na cara e não fazia doer. Era um presente.
E saltar nas pocinhas. E saltar em cima de montes de folhas caídas.
Co-autoria de Beatriz Costa
(Este é centésimo post. Parabéns, leitores.)

Let it be

Os olhinhos sorriem descaradamente e o coração dança como louco. A alma enche-se e musica. E assim vai, deixando-se ser, deixando ser. Mas nem sempre, porque há momentos em que gira sobre si mesma, desgrenha-se e berra.
A sensibilidade cresce e os gestos da outra alma tornam-se enormes. O arrependimento vem fácil, mas a satisfação compensa. E a alma fica meio estranha, sempre tentando pensar em vez de sentir. Ah, mas ele amolece-a, aconchega-a de tal forma que ela não se mexe, apenas sente e deixa-se ser. E passado um tempinho, logo vem o desgrenhanço. E é aí quem vem a Mãe Maria sussurando palavras sábias. Seja ela quem for. Depois de erguida, a alma pensa. Pensa demasiado, nem se redime tão facilmente. Não entende a sabedoria das palavras. Vai vivendo e só depois de alguns momentos, olhando para si, vislumbra a música. Ouve agora as palavras. É então aí que se deixa sentir. E compreende que deixar-se ser é deixar-se sentir, que se lixe a razão, ela aqui não existe. Volta a deixar-se encher e volta a musicar, no entanto, agora, não se desgrenha. Agora chora um pouquinho. Mas volta num instante, até repousar em si e nele.
Assim vai amando.

No momento em que fechamos os olhos

Mesmo antes de adormecer. Ouço. Tudo é o que ouço.

Outono

De manhãzinha, bem acordada mas ainda na delícia confortável do sono, mordia a maçã fresquinha e embrenhava-me na Natureza. O vento estava determinado e as folhas obedeciam, caindo de boa vontade, reparando na sabedoria do sopro. Os passarinhos tímidos, sem saber se podiam cantar, tal era a majestade da natureza nesta manhã. O aconchego que o céu obrigava sentir dava-me energia para o dia.
Dali a pouco, lá em cima, o vento continuava determinado, mas as asas aguentaram-se bem e a instabilidade era divertida. O Sol brilhava mais perto e não me deixava sentir medo. Eu obedecia, conhecendo a sua sabedoria.
Olhei e reparei num bando de pássaros que dançava numa sensatez de profissional que sente o espírito do espectáculo. De cima, via a sombra do bando que mal acompanhava os movimentos, pequenina diante da sua graciosidade. O céu mantinha-se nas cores incapazes de parar de nos dar apoio.
Agradecida.

Descartamo-nos

A religião surgiu - espera, sempre existiu? - pela capacidade reflexiva do Homem, por termos aquele bichinho que nos pergunta o que fazemos aqui e para quê tudo isto. E buscamos respostas de forma tão veemente, tão devotada. No entanto, hoje, assim que nos entra uma ideologia, parece que nos apagam, parece que põe uma venda ao bichinho e fita-cola na sua boca porque passamos a entender um pouco do que isto é, mas por termos tantas respostas (e por mais qualquer coisa), perde-se o interesse. Mal olhamos para o que fazemos, mal olhamos para o que acreditamos, esquecemos que somos seres com vida inteligente e sensível. Esquecemos que sentimos arrepios profundos na alma. Esquecemos que sentimos o silêncio a entrar. Descartamos o que em nós sofre e salta. Cada vez nos desinteressamos mais por nós mesmos. Hoje, o que se procura é ocupação. Tanto tanto. Vejo impaciência, vontade de esquecer. E é pouco por ter respostas, é mais por não querer ouvir. As pessoas não querem entender o que se passa dentro de si. Não, reflectir não. Silêncio? Para totós.
Parece que há a consciência de que somos capazes de entender demasiado e não se aceita isso. Hoje prefere-se a ignorância. A ignorância do que existe aqui dentro, do que somos.
E a religião agora deixa de ter importância. Ela faz sentido a quem gosta de se ouvir e quer descobrir como mudar para cima. E, ai, vejo tão pequena vontade de mudar. Parece que aqui está-se de férias da vida.

A força que nos traz de volta

Por vezes, mesmo com esta maravilha de planeta que nos emprestam, nós deixamo-nos cair, filtramos as belezinhas e envolvemo-nos naquele negrume pesado. Olhamos para o espelho e aquilo que vemos causa-nos um desconforto tal que enjoamos de nojo. Caídos, o que acontece bem não existe. O tédio, pensamos que é o tédio. No entanto, mantemo-nos ocupados. Fazemos, fazemos, fazemos nada. E é aí. Aí é que está o enfado, o desânimo. Não é nas acções em si, é no que elas não produzem. Sabemos que fazemos. Ai, mas não sentimos que o feito seja útil! Mesmo sem entender isto racionalmente, é este sentimento que nos empurra. Nós, caímos.
E tendo tudo, não nos desenvolvemos para obter, para apenas para ter. Tantos de nós somos ociosos. E aquela moleza, que nos descontrai e até nos deixa apreciar melhor as coisinhas, sabe bem. Mas farta. E é quando isso acontece que chega o amigo tédio, já tão conhecido. O entusiasmo! É o entusiasmo que foge. Têm a mesma carga, não podem estar juntos. E como o chamar? É que mandar embora o tédio não resulta porque ele fica se pedem o contrário. Ele não responde a contrários, ele só responde a uma vontade de querer algo, não de não querer algo. Não querer o tédio? Querer o entusiasmo. E isto é motivado pela utilidade de certa acção. Ao avistar um resultado ÚTIL, queremos o entusiasmo para o concretizar. E querer o entusiasmo já é estar entusiasmado.
A moleza é óptima, o empenho também. Dediquemo-nos à utilidade. Relaxemos na utilidade.
E é esta força que nos puxa de volta à alegria de viver, é a sensação de merecermos o planeta emprestado.

Ó gente da minha terra

O Sol aqui em Portugal sabe a brisa, refresca de tão quentinho. Refresca porque conforta, torna o mesmo no novo delicioso. Os montes suaves, às vezes cansados, reflectindo aquelas cores acomodadas, outras, vibrando naquele verde que dá vontade de lhes saltar em cima. Ah, e quando aquelas ovelhinhas se espalham, desordenadas, empenhadas na sua refeição, tão lindas.
O ar, o ar é extraordinário, o ar aqui sente-se bem. Ó gente da minha terra, sintamos o ar! O céu que nos envolve é sempre tão original e motivador, é como o génio do Aladin: transforma-se em qualquer coisa, sempre para nós. Traz-nos de volta a vida que nós afugentamos. Este céu de Portugal! A praia, ai, que belezura de bem-estar. A nossa praia é compreensiva, é jeitosa, é confortável.
O português, com bigode e pança físicos ou só mentais, sabe se divertir, é bom no que toca a relaxar, empenha-se nisso.
Ó gente da minha terra, não nos embrenhemos no nosso enfado mas deixemo-nos absorver sim pelo ar português! Pelo nosso mar ou pela nossa descontracção natural. Logremos estas características típicas que estão aqui dentro, gozemos do que de tão bom somos, ó gente da minha terra. Porque também somos as ovelhas, o génio e os montes.

I'm Mr. November, I won't fuck us over, I won't fuck us over, I'm Mr. November.

Hope so, you Mr. Month.

certo

Ai, os hábitos trazem-nos aquela segurança sossegada. No entanto, os hábitos também nos apoquentam, naquela sua rotina que até faz adormecer. Desassossegam por sossegarem tanto. E trazem aquele radical desejo de mudar de vida. Viagem, mudança de look, reconstrução de ideais, agitação provocada, experiências novas. Sobre estas mudanças todas, vendo objectivamente, trocamos a rotina, mas não deixamos de ter uma. É aqui que está, é essencial a nós, pessoas, assentar nalgum meio, em alguma outra pessoa ou em nós mesmos, mas assentar. Precisamos que algo nos prenda, ou que nós próprios nos agarremos. Aliás, não é assentar é essencial a nós, pessoas; assentar é aquilo que faz com que sejamos uma pessoa, uma única pessoa. E não várias. Assentar é criar laços. E os laços carecem de tempo, o tempo das relações não das horas, para se formar e cimentar.
Os hábitos agarram-nos a uma vida dentro da qual variamos. E, sem uma rotina, não seríamos capazes de nos movimentarmos em nós próprios. É aí que os hábitos, tantas vezes irritantes, nos ajudam a viver, nos dão espaço para reflectir.

Porquê que a perfeição não há-de existir?


É uma ideia. É geral. Ninguém a consegue definir, mas algures no nosso cérebro, ela está lá, bem concreta. O infinito, o universo. Todos conceitos vulgarmente usados. Definições definições? Não conseguimos. Não dá. Mas tentem que é giro. E as coisas existem. E nós sabemos disso. Vivemos sobre elas.


A vida aqui em baixo é uma oportunidade. E, para mim, o seu sentido é evoluir. A morte que se lixe, porque somos eternos. Deus não ia desperdiçar recursos e imaginação para depois cairmos e deixarmos de existir, né? Portanto, acredito que depois de aqui em baixo, continuamos a aprender mais. E vamos progredindo.


Já entendi: deixarmo-nos receber também é dar. E dar é também deixar que os outros dêem!
Não é nada egoísta, dar é mimar o universo, é contribuir para a sua evolução. É amar.